quarta-feira, 18 de março de 2026

Criaturas num território contaminado: a escultura de Mané Pacheco em “Brama”

Ao entrar na Galeria Quadrum tive a sensação de atravessar um território estranho. As esculturas de Mané Pacheco ocupam o espaço como criaturas silenciosas, distribuídas pelo chão ou suspensas. Algumas evocam organismos que oscilam entre corpo e resíduo industrial.










A exposição “Brama”, com curadoria de Ana Cristina Cachola, reúne vinte esculturas distribuídas entre o interior e o exterior da Galeria Quadrum. Instaladas numa sala ampla e iluminada por luz natural, as obras combinam materiais orgânicos e artificiais, construindo um ambiente que sugere um ecossistema instável onde matéria biológica e resíduos industriais se entrelaçam.



Mané Pacheco (Portalegre, 1978). Vive e trabalha em Lisboa. A sua formação inicial na área da Conservação da Natureza, seguida de estudos em Arte Multimédia na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, tem influenciado uma prática artística que explora as relações entre matéria, corpo e ecossistemas contemporâneos. O seu trabalho recorre frequentemente a materiais orgânicos ou resíduos provenientes de processos industriais, reorganizando-os em formas híbridas que questionam as fronteiras entre natureza e tecnologia.



O título da exposição remete para a “brama”, o período de cio dos cervídeos marcado por vocalizações graves que funcionam como afirmação territorial.

O espaço amplo da Galeria Quadrum permite circular entre as esculturas como se estivéssemos a atravessar um território habitado. As peças encontram-se relativamente afastadas umas das outras, fazendo com que cada encontro com uma nova forma tenha algo de inesperado.

Essa dispersão cria a sensação de um ambiente povoado por criaturas enigmáticas. A disposição das obras constrói uma paisagem marcada pela coexistência de materiais naturais e industriais.

A luz natural da sala, contribui para um contraste particular: apesar da estranheza das formas, as esculturas surgem num espaço claro e quase neutro, longe de qualquer ambiente dramático ou teatral. 

Ao mesmo tempo, a distância entre as peças reforça a sua individualidade formal, permitindo uma observação atenta de cada escultura. Essa separação, contudo, enfraquece por momentos a perceção de um ecossistema contínuo, fazendo com que algumas obras se apresentem mais como entidades independentes do que como partes de um mesmo organismo expositivo.






Ainda assim, a sensação de atravessar um território habitado mantém-se. Os materiais utilizados por Mané Pacheco desempenham um papel fundamental na construção desta atmosfera. A borracha e o pelo sintético evocam pelagens ou membranas orgânicas, aproximando as esculturas do universo do corpo. A combinação destes elementos com resíduos industriais introduz uma tensão entre o biológico e o artificial.








As formas resultantes permanecem deliberadamente ambíguas, sugerindo criaturas indefinidas. Essa indefinição confere às peças uma presença quase animal. A proximidade com a materialidade do corpo, através do pelo ou da textura da borracha, provoca uma reação simultaneamente de curiosidade e estranheza, onde os limites entre objeto e organismo se tornam incertos.



As esculturas suspensas em borracha, evocam objetos associados ao corpo e à sua contenção. Certas peças podem lembrar arreios ou dispositivos de suporte corporal, aproximando-se visualmente de artefactos ligados a práticas de controlo ou imobilização do corpo. Esta ambiguidade reforça a dimensão corporal e sexual sugerida na exposição, onde desejo, vulnerabilidade e violência coexistem de forma subtil.

“Biomorfo”, painel de colmeia em alumínio, 34x131x48 cm, 2026



A obra “Biomorfo” apresenta uma forma enrolada que lembra um tronco fossilizado ou um fragmento anatómico.  A superfície metálica de estrutura alveolar, cria um efeito quase mórbido. O resultado é uma peça que parece simultaneamente orgânica e contaminada, como se fosse um organismo transformado por processos industriais ou por um ambiente alterado.








Uma das peças que mais me chamou a atenção foi uma estrutura suspensa construída em borracha natural que se aproxima formalmente de uma rede, sugerindo simultaneamente contenção e suporte. A malha deixa o interior visível, criando uma sensação de estrutura orgânica expandida. 

”Reticular” borracha natural e ferragens de aço inox, 105x102x32 cm, 2026









A utilização da borracha é particularmente significativa. Este material, historicamente associado à exploração colonial e à produção industrial, aproxima o trabalho de uma reflexão sobre os sistemas económicos e ecológicos que atravessam o corpo e o território. A forma de rede reforça essa ambiguidade, pode ser lida tanto como dispositivo de captura quanto como estrutura de sustentação, situando a escultura num espaço intermédio entre proteção e aprisionamento.  A peça encontra-se imóvel no espaço, mas a sua forma pendente e o material elástico criam uma sensação de leveza, como se pudesse balançar facilmente caso seja tocada. Esta tensão entre imobilidade e potencial movimento, sugere um organismo suspenso entre repouso e ativação.



No conjunto, “Brama” apresenta um grupo de peças visualmente fortes e materialmente sugestivas, capazes de evocar organismos híbridos que parecem habitar um território instável.

No entanto, apesar da força individual de várias esculturas, a relação entre as diferentes peças nem sempre se torna imediatamente clara no espaço expositivo. A leitura conceptual proposta pelo texto curatorial ajuda a estabelecer ligações entre os trabalhos, sobretudo no que diz respeito à ideia de ecossistemas híbridos e organismos mutantes. Sem esse enquadramento, algumas das obras podem surgir ao espectador como presenças isoladas dentro da sala.

Ainda assim, a exposição consegue criar um ambiente sensorial marcante, onde materiais e formas evocam simultaneamente o animal e a matéria industrial, convidando o visitante a imaginar formas de vida possíveis num mundo atravessado por transformações tecnológicas e ambientais.

Mais do que representar organismos imaginários, as esculturas de Mané Pacheco sugerem que o mundo contemporâneo já é, em si mesmo, um espaço híbrido onde corpo e tecnologia se encontram em permanente transformação.

Ao sair da exposição fiquei com a sensação de ter atravessado um território habitado por formas estranhas, onde cada escultura parece uma presença isolada e, ao mesmo tempo, parte de um ecossistema ainda por compreender.